era de noite... ja depois de jantar...
acho que ja era verao.
fui te buscar, no carro que tinha na altura,
o buick special de '58, azul matte hardtop com branco.
fui tocar a tua campainha, uma vez só,
como me tinhas dito. esperei la em baixo, encostado ao
carro. olhei para cima... em redor...
estava uma noite porreira, calma, sem vento, uma temperatura boa,
de qualquer modo, nunca me importei com o calor ou com o frio,
quando estavas comigo...
olhei para a janela do teu quarto, a luz estava apagada.
na boa, davamo-nos bem, eramos invenciveis,
ninguem se metia no meio de nos,
iamos juntos para todo o lado, era bem giro.
continuei a olhar para a tua janela, do teu quarto,
( o teu cantinho de princesa, o teu cantinho... )
a luz acendeu, via-se ligeiramente o candeeiro,
com a sua luz branda.
vi-te aparecer 'a janela... ai, so de te ver miuda.
olhei assim de lado, e fiz o meu tique com os labios,
enviosado.
acho que sorriste, moravas num andar baixo,
abriste a janela, e ficaste calada. olhaste-me.
ficamos a olhar um para o outro.
falaste. ' ja vou ' disseste baixo.
' ok ' disse-te.
olhamo-nos em silencio. piscaste o olho. fechaste a janela.
desapareceste da janela. fiquei a pensar em ti...
ah, gosto desta miuda... ainda bem que posso passar tempo contigo,
sabes? sei la, 'es divertida, e esperta, divertes-me...
gosto da tua onda... 'es natural, sei la, 'es do meu genero, miuda.
nunca tive jeito para isto. sou so um rapazito com a mania
do romantismo...
mas acho que fomos feitos um para o outro sabes, miuda?
e la continuei encostado ao carro... o carro era bonito,
e tinha boa onda, era ja antigo, banco corrido 'a frente,
bastante potencia, um motor grande, tu gostavas do Special '58.
Era um carro ate nostalgico, diria.
Continuei a espera que descesses... a luz do predio acendeu.
Devias ser tu. Estava a espera que descesses, apetecia-me ver-te.
Eras tu, vi-te dobrar a pequena esquina das escadas ( interiores ),
e dirigir-te para a porta.
O carro, estacionado ao passeio, com a porta direita a dar para o teu
predio.
Dirigiste-te para mim, para o carro. Chegaste perto, desencostei-me da
porta do carro, dei uns passos e fiquei perto de ti...
olhei para ti... brutal, miuda...
linda como sempre, trazias uns sapatos brancos com
jeans azuis, um top branco. meio magrinha, um corpo espectacular,
cabelo castanho com largas ondas, e claro; os teus olhos castanhos...
acho que te amo, miuda.
vamos, vamos embora daqui, vamos dar uma volta.
olhei para o teu rosto, mordi o labio de baixo assim,
dei outro passo, meti te o braço direito atras das costas e encostei te
a mim, ficamos cara-a-cara.
lembras-te? sei que posso nao ser muito giro,
mas gostava de ti... eras linda. beijaste-me na boca, afaguei o teu cabelo
com a mao, fiz te uma festa com os dedos, perto da orelha,
uma festinha no rosto.
ah.
disse-te ' vamos . '
abri-te a porta do carro.
dei-te a mao para entrares. disse ' entra. '
entraste.
fechei a porta. como claro, num carro daqueles a porta era forte,
pancada seca, anos 50.
dei a volta por tras do carro.
entrei.
olhei para ti. sorri e franzi a sobrancelha.
' vamos onde? '
' para onde quiseres '
como era sexta 'a noite, queria era estar na boa, bazar da confusao, e estar
contigo na boa, a falar, sugeri:
' miradouro ? '
' vamos ' disseste.
liguei o radio do carro, ja tinha uma estacao, estava a dar um rock porreiro.
pus baixo.
liguei as luzes do carro, os mostradores acenderam.
verde antigo, sobre cromado. odómetro corrido.
aquele cheiro dos bancos antigos.
banco da frente corrido. olhei-te.
'es linda, sabes?
toquei de leve na tua mao, que estava no banco.
girei a ignicao. o motor fez-se ouvir.
V8, motor de 5,5 litros...
destravei.
seguimos pela tua rua abaixo, e fomos andando ate ao miradouro.
fiz conversa contigo.
' como estas hoje? '
' estou fixe '
' hmm, optimo. eu tambem estou porreiro, a semana ate foi fixe '
' a minha tambem ' disseste.
' tens a certeza que nao queres ir beber um copo , ou assim ? '
' nao, nao, deixa '
' ok... '
seguimos ate ao miradouro.
tu e eu , sempre tivemos conversas futeis, sobre discos, e musica,
e merdas dessas, nunca fomos muito de politica e coisas atuais,
sempre foste uma miuda estranha. eras um bocado hippie,
e bastante maluca. mas esperta. ninguem te punha a mao,
eras como uma fera. mas eu la te aprendi a domar.
nem me deste muito trabalho... ainda bem.
e la fomos seguindo, falando disto e daquilo, e de nada ao fim ao cabo,
alheados do resto, acho que bastava-nos a companhia um do outro para
estarmos na boa ao fim ao cabo. tornámos uma rua, subimos uma outra,
pouca gente na rua,
uma sexta calmita. as luzes do carro antigo, la iam iluminando a estrada.
e eu continuei com a minha conversa usual.
' ola' '
' ola' ' respondeste.
' cheiras bem '
' e' o meu perfume '
e cheiravas. nem sei que perfume usavas, mas devia ser pouco, porque era tenue
e misturava se com o cheiro da tua pele.
entramos la pela parte mais escondida, meio industrial, ja mais perto do miradouro,
com algumas arvorezitas e isso.
chegamos ao miradouro. nao estava la ninguem.
estacionei de frente, ligeiramente enviosado.
' que sorte, esta vazio ' disse.
' hmmmm, realmente '
' tou farta da escola , nunca mais sao ferias '
' ve mas e' se estudas '
sempre quis que estudasses, eras inteligente demais para trabalhar numa merda
qualquer, nao, isso nao.
' sim , vou tratar disso '
' fazes bem. '
o miradouro era porreiro, nao passava la muita gente, sempre podiamos
estar
na boa os dois. tinha vista de cima para uma parte da cidade,
uma ou outra estradita, nada demais, la ao longe, estava se calmo ali.
tinha algumas arvores, era perto de um ou outro armazem, meio escondido.
desliguei as luzes do carro.
ficamos na boa. ah.
' tudo bem, amor ? '
' na boa '
' optimo ... optimo '
ficámos parados.
ouvia-se a brisa, eu tinha a minha janela um pouco aberta.
as arvores moviam se ligeiramente e estava uma temperatura optima.
aproximei-me de ti.
olhaste para mim, desconfiada. de soslaio.
' queres o que ? '
fiz cara de parvo
' nada. '
' hmmmmm ... '
pus o braço a tua volta, por cima do ombro,
e puxei-te a mim, de manso.
ficaste pertinho de mim.
meu Deus, como eras linda.
meu Deus...
fiquei só assim, pertinho, pertinho de ti, do teu rosto,
tu desarmaste a cara de má...
olhei-te.
olhei para ti.
disse, com intenção ' gosto de ti . '
' gosto mesmo de ti . '
sorriste de leve, claro.
dei-te um beijinho pequeno nos labios.
pequenino. sorri por dentro.
o meu coração tinha muita emoção;
muito amor por ti. nao sei se os meus olhos denotaram.
acho que tambem gostavas de mim.
fiquei assim a sentir este amor, leve, mas grandioso,
mais um pedacinho... depois contive-me,
e dei-te um beijinho na bochecha, ao de leve.
nunca quis muito da vida, acho que me bastavas tu.
mas sim, divago.
' queria fugir contigo , vamos fugir '
' vamos ' disseste.
' ja fugimos hoje um pouco ' continuaste.
' sim , tens razao. '
desci um bocado 'a terra.
' tens de me dar uma foto tua '
' eu dou te uma gira '
' sim, nao te esqueças '
ainda tenho essa foto que me deste depois. olho para ela agora, e lembro-me de ti,
acredito que ainda estas comigo, pelo tempo.
era incrivel o tempo que perdiamos a namorar, so na boa, passar o tempo.
quase surreal.
acho que a maior parte das pessoas devem achar uma perda de tempo, estar assim,
na boa. mas a mim fazia me bem. tempos infindaveis de repeticao.
davamo-nos bem. será que mudou alguma coisa e agora no teu castelo
já nao gostarás de mim?
o radio, estava baixo, mas a tocar.
começou a tocar ' men without hats - safety dance '
puseste-te a dançar um bocado, sempre te mexeste bem. confiança nunca
te faltou. seria que tomavas da minha, ou era eu que tomava da tua?
hm, questiono-me.
de qualquer modo, ficavas gira a dançar.
e lá estavamos nós no Special de '58, numa sexta 'a noite, a deixar o tempo
passar, na boa, sem stress, a olhar um para o outro, tambem nós, fortes
como o tempo. éramos putos. a musica batia-nos no peito , forte, o radio
debitava a melodia, a voz do gajo com o eco caracteristico da noite,
parece que vem tudo a memoria, o passado.
beija-me, beija-me, que se foda o resto. dancemos, dancemos, donzela.
começaste a fazer o sinal da safety dance, levantaste o volume do radio,
abriste a porta do carro, saiste, fechaste-me a porta na cara,
e puseste-te a dançar lá fora,
foda-se,
'es linda...
saí do carro atrás de ti pela outra porta, passei pela parte da
frente do carro. a musica toca. dança...
e tu dançavas bem, nem demais nem de menos, nada de coisinhas sexys,
apenas uma bela miuda a dançar, a sentir a musica no peito,
tu sabes,
com um minimo jeito sexy, so para mim, so para mim...
ninguem sabe que danças bem, eu nao digo a ninguem,
tinhas uma confiança nos olhos que nao vejo há anos.
anos, anos. acho que nunca vou voltar a ver disso, eras unica, chavala.
e sabias, claro que sabias, eras para mim... tive sorte.
sofri para te ter. tinhas aquele fogo, a paixao. o teu cabelo
ondulava contigo, abanavas os ombros com jeito, e fazias o passo
com os pés, compassado. meu Deus, que visão. só de te ver, perdia-me,
e nao, nao e' exagero, eras linda... 'es linda. será que 'e proibido dizer isto,
ou ate sera´ que e' foleiro? nao faz mal, que seja foleiro.
linda.
estava a tua frente, só a bater com o pé , a ver dançar, nada pretenciosa,
nada demais, nada de menos, parecia algo vindo do céu.
pensando bem, tivemos demasiados momentos destes, por isso e' que me
deixaste assim.
perdia-me nos teus olhos.
era uma loucura. a seguir o som fez fade na radio...
paraste de dançar um pouco com jeito, acabaste naquela.
uns anuncios na radio, quaisquer coisas em fundo,
interludio.
o vento...
o silencio.
claro, claro.
dei um passo ate ti, abracei-te pela cintura, puxei-te ate' mim,
inclinaste-te para trás, claro. abanaste o cabelo.
dei te um beijo no pescoço, leve, outro mais ao pe´ da orelha, por trás.
riste. desarmas-me. e agora? hmm? palavras? acções? nao, deixa estar, miuda.
'es demais. diz que gostas de mim, faz me acreditar que e' verdade,
para quando me sentar 'a noite no meu quarto, sozinho, possa acreditar que
alguem gosta de mim. assim quando passear no Buick, pela noite, sem ti,
possa rir-me e saber que te tive para mim. so para mim.
na radio, entrou 'a sucapa, um outro som,
' foreigner - urgent '
' gosto deste som ' disse-te, e continuei
' hei de ouvi-lo um dia sem ti '
olhaste para mim.
parámos.
começaste a marcar o compasso com um estalar de dedos...
um, dois, tres, quatro.
um, dois, tres, quatro.
comecei a marcar compasso com os pés e depois com os ombros,
sabes qual era o jeito que eu dava... um... e depois, outro,
um... e depois o outro, mantendo o compasso com os pés.
começaste a dançar, juntaste-te a mim, anda.
entao começamos a dançar juntos, começamos a sentir um ao outro...
equilibrio puro, cuidado, sem hesitação, fronteiras ou algo similar.
mas pensaste em alguma coisa, enquanto dançavas comigo?
eu nao. tu tambem não, pois nao, que eu vi.
e preocupaste-te?
dançámos, dancámos, nos os dois...
a musica tocava...
sabia bem.
e tocava.
nao, nao era foleiro, era a musica, o tempo , as notas,
o volumes, os agudos, os graves, o teu olhar, doce, mas poderoso
e seguro como nenhum outro.
claro, claro, obrigado, eu sei.
via cada gesto das tuas maos a moverem-se com a musica, brutal,
poesia monumental, 'es poesia, dança, dança comigo, mais esta vez...
de quando a quando fechavas um pouco os olhos, enquanto ouvias a musica,
ia tocando... doçura, nem sei bem explicar-te. dancei tambem para ti,
tambem tenho algum jeito, tambem tenho alguns truques,
alguns passos estudados, decorados,
ja perdi algum tempo a aprender.
ja passei algumas noites na discoteca;
passámos.
e assim , dançando, dançando, um para o outro,
deixámos passar mais uma musica
nesta noite, uma das nossas noites. esta acabou.
meti a mao pela janela do carro,
baixei um pouco o volume do radio.
olha-me, paixao, olha-me.
na altura nao perdiamos tempo. era tudo bom. ao menos tivemos esse tempo.
encostaste-te ao carro.
fiquei a olhar para ti, frente a ti, de pé.
tinhas o cabelo comprido, castanho. bem, deixa me ver os teus olhos,
acho que nao deixas muita gente ve-los. vejo os sim, e sinto te,
deste me a chave. bem, digo-te que 'es espectacular, fazes-me bem,
sem ti acho que isto nao tinha piada. nah. so se eu fosse religioso, se
calhar. hmmm...
os teus olhos, deixa me que te diga, teem qualquer coisa, certamente,
pois apaixonei me por ti; assim. assim. e depois nao sei, o que tu 'es,
as vezes pensava se eras assim para me agradar, ou se serias mesmo assim,
por natureza. eras mesmo assim. eu sei. os teus olhos, deixa me ve-los,
fazem me lembrar qualquer coisa, deixa me ver... nao sei, acho que,
acho que... nao sei... nao sei. mas como e' que me apaixonas assim?
gostava de saber fazer isso. vou deixar isso para ti. olha, sabes...
deixa me ver-te. deixa. bem, saindo um bocado do meu pensamento, voltei 'a
realidade, estavas a olhar-me, toda gira, encostada 'a porta do carro de
perna meio traçada. a luz incidia sobre ti, fraca, de um ou outro candeeiro que
estava ali. luz meio arroxeada ou que era aquilo. eram aquelas lampadas maradas
que havia.
' 'tás a pensar no que ? '
' num livro que vou escrever sobre nós ' disse-te.
' eh la '
' pois... '
breves segundos...
' olha la para as tuas maos ' disse-te
tu puseste-te a olhar para as tuas maos.
eu ri-me.
' tens piada tu ' riste , algo mázinha.
' ah ah ' retorqui.
um passo 'a frente, e dei-te um beijo nos labios, curto.
tenho saudades de te sentir em mim, agora estou no outro lado, penso.
sei que andas por ai, sinto-te, mas.
' mostra-me as tuas maos ' disseste. tinhas uma voz doce, e apaixonada,
parecia que tu; tu, quando falavas trazias uma paixao na voz, arrebatadora...
parecia que dizias assim:
' mostra-me as tuas maos ' , mas eu tambem ouvia :
' amo-te tanto , olha da-me amor, vá-la, vá '
estranho. devia , devo ser louco, hm. de certeza era uma fantasia minha,
eu sei que era. nunca tive juizo.
sempre tive medo de te perder. gosto de ti.
mostrei-te as minhas maos.
' tens umas maos bonitas, bem cuidadas '
nesse aspecto ate tinhas razao.
' toca-me ' disseste. e puseste a minha mão direita sobre o teu rosto,
de lado, para que te afagasse. fiz-te uma festa, e sorri ligeiramente com os
olhos.
' 'es a minha rainha ' continuei com o meu sorriso de ar sofredor.
bonito, bonito. 'e isso.
disse assim, um pouco alto:
' este mundo, 'e teu! '
recorrente. palavras. mas seriam? o vento, continuava, manso,
as folhas das arvores que estavam ali no parque , sussuravam tambem,
um pouco... ah. nem calor, nem frio. bom.
e o vento passava... calmamente.
e, nós, ali... os dois. o carro.
escondidos... alheados de tudo.
' olha, porque e' que gostas de mim ? ' perguntei-te.
' nao sei ... ' continuaste
' porque eu acho que me sonhaste '
' sim, e' por isso ' fiquei assim, meio.
parámos. reparei que no rádio estava a dar uma coisa que me parecia...
' domino dancing , pet shop boys '
afastei-te um bocado e pela janela levantei o volume.
por acaso era mesmo. perguntei-te:
' queres ouvir ? '
' pode ser '
deixámos a musica entrar... boa onda...
ficamos a ouvi-la um bocado. os dois encostados ao carro... Special '58.
tu estavas do meu lado direito; pus-te o braço por cima do ombro.
sentia o teu calor.
a musica ouvia-se bem. ficava fixe. ia correndo.
vamos ouvindo... ia olhando um pouco em frente, de vez em quando, para ti.
olá giraça. boa onda... bom momento.
sempre me fizeste as vontades... agradeço.
nao sei. sei que gosto de ti. 'e belo poder estar contigo. sim.
sorri por dentro, e depois sorri um pouquinho, nostalgico.
feliz. alegre... sorrio.
sabes...
acho que nós, somos uma canção eterna. um para o outro.
cosmos.
hmm. acho que sim. olá giraça! baixei um bocado do volume do radio,
peguei-te pela mao, e fomos nos sentar um bocado no beiral do miradouro.
pusemo-nos a olhar la para baixo... havia umas estraditas, passavam uns carros
'as vezes... umas casitas la ao longe. e nós, ca muito em cima a ver.
' olha, olha, uns carrinhos que passam ' disseste.
' pois ... '
' o que e' que andaram a fazer ? ' perguntaste-me.
' nao faço ideia ' disse-te.
' es mesmo desinteressante '
' ve la se levas ' disse
' olha ! ' disseste.
eras má. ficaste com a cara, a olhar me de lado e cara de má.
' mas o que e' que andam a fazer ' perguntaste de novo.
tentei pensar numa cena para dizer.
' eh, pa, sei la a atrofiar '
' ahhh, viste ja sabes ' disseste.
' disse 'a toa, burra '
' nao me chames burra, totó. levas '
' pronto, ok. '
o vento. o tempo. ambiente... musica de fundo...
olá giraça. olhei-te. estavas com as pernocas abertas, uma para cada lado,
em cima do beiral, que era estreito, virada de frente para mim.
eu tambem. demos as maos, frente a frente.
olhamos um para o outro.
' isto e' romantico ' disseste.
' ah, sim, pois e' ... vou tentar dizer uma cena romantica. '
' 'es muita gira , e cenas dessas, vou amar-te para sempre '
' obrigado ' disseste.
dialogos interminaveis. cenas futeis. as vezes tenho flashbacks desses
momentos. Graças a Deus. E se pensar, vou mais fundo e lembro me de outras
coisas. Era bonito. Pairavamos sobre as coisas, nao estavamos bem no mundo,
acho que por assim dizer, estavamos no céu. Teremos morrido, Amor, e agora
estamos mortos? 'As vezes penso que sim. Cenas futeis. Conversas sobre discos,
sobre o nada, sobre o que ocorria. tempos mortos, tempos vivos, alegria,
tristeza, mas era bom, era bom e tu amavas-me, como ninguem.
Como nunca ninguem o poderia fazer. So tu. Olá Giraça, da me a tua mão.
Sorri, olhei para ti. 'Es magnificamente bela, magnifica, surreal.
So estou bem... sabes como? Perto de ti.
'Es tudo para mim... nada disto faria sentido sem ti. Nada.
A ver se nao me esqueço, de me lembrar da primeira vez que te vi...
Ahh... ah, sim... lembro-me. Eu depois escrevo. Agora que penso nisso,
bom, 'es perfeita. Acordo.
Tocas-me no ombro.
' João ? ' chamas.
Sobressaltado.
' Sim ? '
' entao ? '
Estava a absorver aqui o momento.
' Hmmm, ta bem ' disseste.
' Queres ir dar uma volta na Strip daqui a bocado ? '
' Pode ser, claro ' continuei:
' Queres ir la fazer alguma coisa? '
' Sei la, ir ao Mac '
' boa, boa, aproveitamos para dar uma volta... cruisin'... alinhas ? '
' pode ser. e acelerar um bocado ? ' perguntaste.
' sim ' disse.
' fixe ' concluiste.
Pus a minha perna direita por cima da tua esquerda, para ficar mais
perto de ti, e cheguei me perto de ti para te beijar.
Dei-te um beijo na boca, demos. Um beijo, durante um pedaço;
'as vezes fecho os olhos, nao sei. Ao de leve. Pois.
Beijamo-nos. Sempre gostei de te beijar. E' algo tao simples, mas ao mesmo tempo,
bastante unico, e teu, so teu. Continuamos a beijar-nos. Belo.
Fazes-me feliz. Desculpa por ser fraco 'as vezes.
Anda, Bela Adormecida. Vamos 'a Strip.
Parámos de nos beijar. Olhei-te, os teus olhos tinham uma tal paixao, fomos
feitos um para o outro, nao tenho qualquer duvida, les isso ?
Sim, e' verdade, digo-to eu. E via essa paixao, um calor... simples, eras tu.
Afinal, 'es uma mulher. A minha. Porra, 'es linda. Morria por ti.
Eu disse-to. Olha, vamos 'a Strip.
O teu corpo, brutal, nem sei... perfeito, quase que parei...
O top branco, com esses jeans... o teu cabelo. Essas ondas do teu cabelo,
castanho. Abanaste a cabeça a dar um jeito ao cabelo, e passaste-lhe com a mao.
Levantei-me. Tu tambem. Fomos ate ao carro. Abriste a porta, e nao entrando,
tiraste alguma coisa do tablier.
Uma malinha preta de tiracolo, daquelas pequeninas, de onde tiraste
um espelho pequenino.
Viste-te ao espelho, limpaste o canto da boca com o dedo, e puseste baton,
um rosa leve, que tinhas dentro da malinha.
Eu, entrei no carro para conduzir. Tu entraste tambem.
Fechaste a porta e estavas a arrumar as coisas na malinha preta.
Olhaste para mim.
' Olá ' disseste.
' Vamos ? ' perguntei.
' Sim ' respondeste.
Tempo.
A noite.
Silencio.
Engatei o Reverse.
Meti a mao 'a chave, que ja estava na ignicao...
Girei-a.
O 5.5 Litros começou a trabalhar... lento e cansado...
pela noite...
Trabalhava.
Fiz marcha atras, e inverti o sentido, para sairmos do parque,
travei.
Liguei as luzes.
Engatei o Drive, e acelerei um pouco, saimos do parque,
contornamos a fabrica,
e subimos a rua, ...
O '58 levou nos dali para fora, lento e semi compassado.
jf. ( 11 )
01 / 08 / 10
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