'Es a melhor, a melhor de sempre... eu sei.
Tento 'as vezes disfarçar, fazer de conta que ate nao sinto muito
tua falta; mas custa-me. E sim, digo ' ola' ' a tua foto.
Conforta-me.
Tu, olhas-me, com a mesma calma de sempre, com a tua expressao
calma, e terna. Sinto a tua falta. Sera' que se saissemos agora,
iamos curtir? Vou-te contar um segredo...
Acho que sim.
Fomos feitos um para o outro, e eu sei disso; eu sei.
E pelo meio de palavras, pontos finais, virgulas, imaginacao,
pontos de exclamacao ( poucos ), e alguns de interrogação, aqui estou,
num ponto de encontro contigo.
Mas tu; tu, 'es real.
Ainda que fosses
fantasia; mas por acaso nao; eu quando ler isto vou me lembrar.
Conhecemo-nos no Verão. Mas ja te tinha visto antes.
Ja tinha ja'. Por ai.
Se calhar tambem andavas a minha procura; eu andava 'a tua, a serio.
Mais um dia passou.
Tenho a minha mao na tua, a teu lado, estamos no carro,
acabo de comer a goma, vermelha.
Tu estas, assim sorridente... com a tua calma.
Ao fim ao cabo 'es uma Santa. Sim, e' segredo, eu nao conto a ninguem;
mas eu acho que eles percebem.
Olho la para fora, as folhas das arvores mexem, ao sabor da brisa numa
noite excelente, num nosso espaço; o Buick reluz sobre as terriveis luzes
da rua... Os disticos no capot... Uma frente longa, larga...
Onde habita o 327CI, 8 cilindros em V; este carro tem qualquer coisa
de fantasmagorico; do alem; deve ser das imperfeicoes e peças envelhecidas,
ou ate talvez de outra coisa, que eu nao esteja a ver...
Atrás diz Special, em letras
maiusculas; mala, a qual, adornada por duas barbatanas bicudas com cromado
no topo, por cima dos Stops a vermelho.
A gasolina entra, disfarçadamente, a meio do para choques traseiro.
O radio continua a tocar, baixinho, algum rock.
Olho de novo para as arvores. Gosto de ve-las. Sempre gostei da natureza.
Olho para ti, peço-te mais uma goma.
' Da-me uma goma, pode ser '
Das me o pacote para as maos.
' Tira '
Começo a tirar uma goma, esta e' das brancas. Deve ser de limao.
Tiro a com o dedo polegar, e ponho a na palma da minha mao esquerda,
pergunto-te
' Queres ? '
' Nao, come essa, daqui a pouco como o meu anel ' ris.
' Esta bem, eu sabia que esta relacao nao ia durar muito, de
qualquer modo ' digo.
' Deve ser de que sabor ? '
' Nao sei amor, tens de experimentar ' respondo.
' Hmmm, vou come-lo '
' Come '
Levo a goma a boca, e dou lhe umas trincas; e' boa, gosto destas gomas,
sao bem doces.
Começas a tirar o anel do dedo, e ,
guarda-lo na tua mao.
' Foi bom enquanto durou ' dizes.
' Sim, nao foi mau. '
' Foi bom, mas tu 'es um bocadinho mau '
' Tu nao; tu, 'es linda '
Chegas te a mim, e das me um beijo nos labios, e roças o teu nariz no
meu, com carinho; sorris.
Com o meu braço direito, nao te deixo voltar ao teu lugar,
e mantenho te junto a mim,
dou te um beijo curto, nos labios; mas apaixonado, para te ter mais um pouco;
meu Deus, como e' bom sentir os teus labios junto aos meus.
Ja beijei outras gajas; e tu, 'es melhor.
'Es a melhor.
Deixo-te ir. Voltas ao teu lugar no assento.
Abres a mao; e com a outra, levas o anel que la estava, 'a boca.
' Deve ter um sabor a açucar generico , aposto ' digo.
' Sim, deve ser '
Trincas o anel.
' Hmmmm, deixa ver. Até nao e' mau. Mas e' muito doce, uh,
nao o vou comer todo , enjoa '
' Ainda por cima poes defeitos ' digo.
Sorris.
' Vou por aqui no cinzeiro o resto '
' Sim, faz isso '
Abres o cinzeiro. Poes la dentro o que resta do anel açucarado.
Fecha-lo.
Olhas-me com um olhar.
Pouso as gomas no acento do carro.
' Olha; posso-te dizer um segredo ? ' perguntas.
' Hm; eh pa, acho que sim '
Tiras o volume do radio.
Chegas-te ao pé de mim, pelo banco, corrido...
Chegas-te mais. Metes as tuas pernas em cima das minhas ; de lado;
quase como se te sentasses ao meu colo. Estás a minha direita.
Chegas a tua boca 'a minha orelha e segredas:
' 'Es todo giro, sabias? '
' Nao... ' refiro.
' Olha... '
' Sim, diz '
Assim, de mansinho, poes tambem os braços a volta do meu pescoço,
e começas me a beijar atrás da orelha, do meu lado direito, devagarinho.
Ouço o teu respirar, la' ao
fundo... muito ao de leve. Mantenho-me calmo. Frio.
Mas estou aqui. Com a tua mao direita fazes me festas no cabelo,
e continuas agarrada a mim, e ao meu colo.
Um pouco chateado... olho a volta;
estamos sozinhos. Continuo sério. Olho la para cima , para o céu, negro,
vejo as estrelas... solitarias, a anos luz daqui.
Olho mais um pouco o ceu da noite.
' Não e' melhor irmos andando ?' pergunto.
' Não ; deixa estar, so mais um pedacinho... '
Continuas a mimar-me; com beijinhos,
perto da minha orelha.
Paras de me acariciar o cabelo, e agarras-te com os dois braços a mim,
ouço te respirar, e sinto um outro compasso, mais lento...
Pesado.
Ouço-te respirar, devagar; devagar. Roças o teu rosto no meu,
devagarinho... devagarinho. Respiras. Estou um pouco, serio; mas ja baixei
um pouco as defesas.
Continuas, rosto colado ao meu, e começas a chegar mais 'a frente do meu
rosto; sinto o teu rosto tocar no meu de manso; fecho um pouco
os olhos.
Parado; atento, viro os olhos na tua direcçao, estas a milimetros de mim.
Olho-te, serio.
Afastas o teu rosto de mim, um pouco, ficamos cara a cara.
Olhas-me.
Olho os teus olhos... esta escuro, mas vejo os...
dizem qualquer coisa. Nao hesitas. Continuas a olhar me. Vejo os teus olhos.
' Va la' Leonor; 'ta quieta '
' Va' la , nao sejas chato ' dizes, altiva.
Aproximas o rosto do meu, apertando-me mais
com os teus braços, sinto o teu corpo ficar mais perto, sinto as tuas
pernas sobre as minhas.
Os teus labios estao a milimetros dos meus...
aproximas-te mais um milimetro;
os nossos labios tocam-se, pouco a pouco.
Beijamo-nos.
Beijamo-nos mais; os nossos labios, tocam-se, assim;
e' magia... Abro os olhos; vejo o teu rosto,
olho-te nos olhos... 'e a nossa paixao, completa...
'Es bela como nenhuma outra. Os nossos labios tocam-se,
molhados...
Olho os teus olhos...
Ha' qualquer coisa neles... Ha' uma paixao
tao grande, tao intensa, que ao ve-la; sinto-a;
sei que me amas, sei que me amas.
Tiras os braços, levemente de volta de mim; e ainda beijando-me,
tiras as pernas de cima de mim,
sentas-te 'a minha direita. Páras de me beijar;
poes as maos sobre o meu colarinho; e começas a
empurrar-me para baixo... devagar.
Começamos a deslizar pelo encosto do banco, ( sendo um banco corrido) ,
ficamos deitados sobre ele; eu por baixo.
O peso do teu corpo em cima do meu...
Agrada-me. Muito.
Continuamos a beijar-nos, apaixonadamente... docemente.
Deitados, sobre o longo banco da frente do Buick Special de 1958;
numa maravilhosa; sublime, noite de Verão.
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