foda-se.
alo, acordei. bom dia, e' de manha.
estou fresco, mesmo assim. gosto de morar aqui, na encosta.
e' calmo. estou fresco. penso em que? nao penso em nada.
ah sim, pois entao ok. sento me a beira da cama, de boxers.
pouso a cabeça nas maos, sobre os joelhos. olhos fechados...
estou a beira da cama, sentado. esta' tudo bem... mais um dia, porreiro.
abro uma nesga do estore, pouco, pouco, para ai um palmo.
nao curto a luz branca da manhã ou la que horas são, vai-te foder.
desligo o candeeiro; e sim faço mesmo isto tambem, em casa.
deixa ca ver. tento pensar em ti, para escrever melhor isto,
parecer verdade. mas, e foi. ah, ah. esta' na hora.
mais uns segundos aqui assim abancado, mais uns segundos, de amanhecer.
tenho um telefone preto, de rodar; no chao. perto da cama, com o fio a
correr da parede. vou te ligar; ainda nao, ainda e' cedo. espera, vou ja.
estou de tronco nu; sim, e' verao e esta calor; nao muito, mas um pouco.
felizmente dormi p'ra caraças esta noite, ainda voltamos tarde.
olho para o despertador radio da GE; e' meio dia e meio, quase.
deixa me atrofiar. só penso em ti, so penso em ti, so penso em ti,
so penso em ti; em ti, em ti, aiii, e que bem que me sabe!!!!
e ainda vou pensar mais, mais, mais, e mais; mais mais mais,
enquanto Deus quiser!!! Ahhh.
Foda-se. Penteio o cabelo com as maos, dou os jeitos; levanto-me.
Caminho; lentamente, ate' a casa de banho.
Abro a torneira do lavatorio, meto as maos por baixo, molho as um bocado,
mando a agua 'a cara, e esfrego pouco. Fresco. Optimo. Deixa ca ver a toalha.
Seco a cara, deixo um bocado molhada. Fecho a porta.
Abro-a. Vou ate a cozinha, e vejo a porta do quarto dos meus cotas aberta;
e sim, pelo barulho eles nao devem ca estar.
Chego 'a cozinha. Nada. Olho para a mesa, um papelito. Leio.
' Já saimos, voltamos a meio da semana ' Pois, bem me tinha esquecido
que a minha mae me tinha dito que eles iam la' para a terriola.
Olha; menos mal, tenho a casa para mim, meto a musica bem alto, estar na
minha, atrofiar. Andar sujo e coisas dessas. Tronco nu, e de t shirts sujas.
Pronto. Abro o frigorifico, saco o leite; mamo mesmo do pacote umas goladas,
ahhhh, fresquinho, boa, boa. Fecho o frigorifico.
Volto para o quarto. La' esta o telefone. Sento me na cama. Tem uma colcha
vermelha marada com berloques, 'a antiga. O meu quarto esta' repleto de merdas
antigas, psicadelismo e um ou outro radio antigo, mas tudo ao bom estilo
dos 80s. Um gira discos. Uma aparelhagem, que por sinal, toca alto.
Boas colunas. Tudo Marantz; as colunas Celestion.
Grande som , grande som. Eh pa; tenho uns quantos vinis, nos as vezes
ficamos aqui no quarto a curtir; curtimos, metemos uns discos, falamos,
olhamo-nos, ficamos calados; e' fixe.
'E fixe, e' fixe. Estou sentado na cama; 'a minha esquerda, quase por baixo
da cama, esta' o trim trim. Puxo o para perto, pego nele.
Marco o teu numero, anda as voltas, e faz rrrrrrr.
Marco, um, depois o outro, e o outro, ate marcar o numero todo;
pego no telefone com a mao esquerda; e no auscultador com a direita...
Tuuttt, tuuuttt, vai tocando, vamos la ver se atendes; a ver se percebes
que sou eu, a ver se nao e' o teu pai. Va´, atende la'.
Tuuuut... Tuuuuut, alguem atende;
' Estou ? '
Ah, 'es tu, ainda bem!
' Ola, Leonor... sou eu... '
' Bom dia ' dizes melosa.
' Bom dia alegria ' digo-te, e sigo
' dormiste bem? '
' siim ! '
' hmmm, que bom... atendeste no quarto ? '
' sim, tou aqui no meu quartinho, encostei a porta '
' Fixe. '
' Dormi bem... estou bem disposta. Ontem foi fixe, gostei da noite '
' Eu tambem curti... '
Silencio.
Escrevo isto, 'a noite. Esta' calor. Penso em ti.
Olho a volta. Nada e' como dantes. E nao e' mesmo. Tudo sem alma.
E' apenas ; nada. Minto. Hm. Escrevo... Nada tem de ser, tudo e'.
Boa noite. Disse que morria por ti, e morri mesmo. Obrigado.
' Foi diferente, nao foi aborrecido, foi mesmo muito fixe...
nao sei porque... acho que gosto de ti... damo-nos bem ' dizes.
Nem andavamos ha muito tempo. Uns meses. Acabamos da mesma forma que
andavamos; na boa, a darmo-nos bem.
' Por acaso tambem adorei... estava mesmo fixe, fresquinho, e' raro,
costuma estar muito calor, e estavas linda, lindissima...
sabes Leonor... acho que 'es linda...
estou muito apaixonado por ti '
Tu escutas. E mais,
' Adoro os teus olhos... sabias ? '
' hmm... ' dizes em tom de duvida.
Deito-me na cama; encosto me a almofada, ao comprido. O telefone, de lado
da cama, estico o fio, puxo o um pouco; e fico na boa com o auscultador,
a falar contigo.
' Onde e' que queres ir hoje ? ' pergunto.
' Nao tens ideias tuas ? '
' Hm. Sim. '
' Entao, diz '
' Podemos ir aquele parque de diversoes temporario, que ha perto da tua
casa, queria dar uma volta contigo, no carrosel... iamos andar nos cavalinhos '
' Boa, parece fixe... ia gostar ' dizes.
' Se nao gostares, azar do caralho ' digo, assim.
' Oh Joao, nao digas asneiras, nao tem piada '
' Ok. Ja tomaste o pequeno almoço ? ' pergunto.
' Ah, bebi leite, e comi umas bolachas , pouco mais '
' boa, boa, eu tambem so bebo leite quando acordo...
Vou-te ai buscar para almoçarmos? '
' Nao, deixa estar, eu almoço aqui, e depois vem me ca buscar.
Vamos para tua casa primeiro; e vamos a feira mais tarde ??? '
' Sim, pode ser ' confirmo.
' Ok, nao te esqueças ' referes.
E' que sou um bocado esquecido as vezes. Falámos mais um bocado.
Ja sei como vou vestido, levo uns outros jeans que tenho, azul clarinho,
com virola em baixo,
uma camisa arroxeada, tom seco, meio gasto, mangas arregaçadas,
colarinhos para cima, cabelo com um bocado de graxa, penteado para tras,
com poupa quase ao meio, a cair para a frente...
Talvez leve uma gravata azulada que tenho.
Calçados, levo uns sapatos pretos fixes que tenho aqui, tenho de me lembrar
de os polir com a escova, para ficarem com um aspecto porreiro.
Hmmm, parece me bem.
Falamos.
' Tenho sono, quero dormir ' dizes.
' Ja dormiste o suficiente, sleepy head; acorda... agora e' de dia '
' Cala-te e deixa me dormir! '
' Nao ' respondo.
' Esta bem! ' ris. Continuas
' Olha... '
' Diz... '
' Quero andar no carrosel '
' Ja vai... '
' Olha ' repetes;
' Diz '
' Vem ca ter... '
' Ja vou '
' Nao, agora. '
' Nao , mais logo '
' Va la' , anda la '
' Nao. '
' Va la... '
' Olha que eu vou '
' Nao. ' respondes.
' Pronto esta' bem . Olha; vem gira, apanha o cabelo atras,
e tras assim uma cena gira, 'tas a ver; nao sei. '
' Vais te vestir como ? '
' Assim, meio rocker, camisa, ganga e sapato '
' Ah, ta bem. Vou ver '
' Gosto de ti meu amor!!! ' anuncio.
' Eu tambem , muah !!! ' devolves.
E dizes:
' tens saudades minhas ? '
' nao muitas... daqui a 5 minutos tenho mais ' digo, assim.
' entao olha... desliga... eu vou almoçar daqui a nada;
tira esses 5 minutos... e fica com saudades, se conseguires.
Depois; vem me buscar. Pode ser? '
' Olha, acho que sim ' digo.
' va, ate ja '
' ate ja, Leonor... '
Desligo metendo o dedo no descanso do telefone que estava ao lado da cama,
e pouso o auscultador, metendo o telefone debaixo da cama.
Vou ate aos meus discos no armario, e de frente, saco um disco...
Ja vou com destino traçado... Eu sei.
Puxo
' The Who - Who's Next ? ' , 1971. Original Polydor pressing.
Ahh, ok. Aqui está. Saco o disco da capa, saco o disco da sleeve,
Pouso a capa e a sleeve em cima no armario, na prateleira acima.
Meto o disco, Lado A, no prato. Marantz. Vejo.
Esta em 33 1/3 rotações. Está.
Ligo o Amplificador. As luzes iluminam os VU's. Tudo ok; levanto um
pouco o volume. Meto em Phono.
Tiro o lock do braço. Puxo o braço para cima do disco,
o prato começar a rodar, arranca, arranca.
Aqui estou.
Ruido no disco, crepita... Entra o sintetizador...
' Baba O'Riley ', vou curtir...
Ah, muito fixe este som.
Afasto me, vou ate perto da cama.
Sento me na beira da cama, e fico a ouvir o som que
começa, piano, toca as notas; toca,
entrada com bateria; toca;
entra a voz...
este album e' bom.
A musica vai tocando,
tocando; tocando.
E toca... e' fixe.
Ah... Encosto me na almofada, cruzo os braços
atras da cabeça, fecho os olhos; fico, em cima da cama.
A musica toca; alto; ouço a bem, ouço a bem.
Lembro-me dessa manhã, de estar a ouvir o ' Baba O´Riley ',
e a musica ia tocando; vai tocando;
ouço-a.
O disco vai rodando no prato... rodando.
A musica, deixo-me ficar a ouvir.
Ja esta quase no fim... A confusao;
parte do violino, toca, furiosamente...
Mais depressa, mais notas; mais bateria, acelera-se o compasso;
'e o fim;
e' o fim. Acaba a musica. Num estrondo quase.
Abro os olhos.
A proxima musica vai entrar, ouço o intervalo da pista.
Com os braços, faço para me levantar.
Levanto-me da cama. Agora a seguir, vai entrar ' Bargain ' , mas a que eu
queria ouvir era ' Getting in tune '.
Os Who fazem musica fixe. Tenho aqui alguns discos deles, tambem tenho o
' Tommy ' de 1969, trouxe-me um gajo dos USA, e este e' da Decca.
Ah. Daqui a nada ja vou ter com o meu amor. Dirijo-me ao prato,
baixo o volume do amp, levanto a agulha, meto no encosto e prendo-a.
Ah, eu sei que me ouves... Olá !!!
Eu sei ...
Fico parado no meu quarto, em silencio, frente a aparelhagem, tronco nu,
parado... sem pensar, so a sentir a tua emoção no meu peito...
Fecho os olhos, sinto o detalhe do meu quarto em mim, e a ideia dos
anos 80 em mim; junto tambem contigo, e deixo correr, passar,
na minha ideia... e sinto. Sinto.
Assim menos, abro os olhos devagar. A ver se me lembro do que me disseste.
Ah ja sei. 5 minutos nao sei que, e depois almoço e vou ai ter nao e' ???
Acho que era isso. Era, era. Deito me entao na cama.
Cabeça na almofada, braços cruzados. Fecho os olhos
Um momento de descanso, 5 minutos. Páro. Nao penso em nada.
Apenas tempo. Ok. Ah, descanso. Sem pensar em nada...
5 minutos. Abro os olhos. Levanto-me, visto os jeans, virola em baixo.
Visto. Fecho o botao, e fecho os botoes da braguilha. Ok.
Estou descalço. Vou ate' 'a cozinha. O que e' que irei comer?
Hm. Spam, uma merda qualquer. Estou sem grande paciencia, isso digo-te
ja´. 'E mesmo isso. Spam. Com batatas fritas. Vou buscar duas batatas
'a dispensa; descasco-as, corto em palitos. Deixo as no balcao, vou buscar
a lata de Spam, e abro a ali, no balcao tambem, com o abridor que traz.
Ok. Spam ate e' porreiro, e acho que nem o vou fritar.
Tiro a fritadeira do forno, meto a em cima, puxo do fosforo, acendo o bico.
Meto no maior. Deixo aquecer. Vou sacar o Spam, empurro-o.
Corto uma fatia... fina, e tiro uma dentada... Bem que me lembro do sabor,
do Spam, nessa manha de '85. Lembro-me. Escrevo aqui de lado, para ir comprar
uma lata... vai na volta ainda ha' da mesma marca, sei la.
O oleo aquece, aquece, esta' a ferver, atiro as batatas la para dentro,
com cuidado para nao me salpicar; elas la caem, va la, nao espirrou muito.
Fritam. Fritem para ai. O Spam e' so cortar, e vai mesmo assim para o prato.
Meto umas fatias no prato , 3. Deixo as batatas fritar...
Sento me numa cadeira, perto da mesa. Fico ali, espero.
Ja devem estar fritas, levanto-me. Sim. Tiro as batatas da fritadeira,
meto as num prato com papel absorvente. Meto sal. Mexo-as.
Mando as para o prato com as fatias de spam. Esta' ok. Levo o prato para a mesa.
Sento me. Penso se vou ligar a tv, para ouvir qualquer coisa... hmm.
Nepia, que se lixe. Ligo o radio que esta ali no balcao, ao fundo.
Sintonizo uma cena fixe, meto baixo, um pop qualquer.
Vou ate a mesa, começo a comer. Corto um pedaço de uma fatia de spam,
levo o a boca. E' fixe, as vezes sabe bem. Mastigo. Tiro uma garfada de batatas,
e como as... Vou comendo, tomo o meu almoço, calmamente, no meu ritmo
descontraido, na boa. Ouço a musica. Como. Acabo de almoçar, limpo o prato,
meto no balcao, assim como os talheres, lavo depois.
Vou ate ao meu quarto. A ver se me visto. Encosto me mais um pouco na cama,
cabeça na almofada... a olhar para o tecto. Daqui a nada, vou ter contigo;
vamos ate' 'a feira... por acaso , esta me a apetecer ir la um bocado.
Bom, os 5 minutos, vou deixa los passar devagar, para ficar com saudades
tuas... 5 minutos, 1, minuto, 3 minutos, 10 minutos...
ahhh... descanso... descanso. Nao penso em nada. Fico só.
O tempo passa. Levanto-me, devagar, olho em redor. Pego na camisa,
visto a. Meto as golas para cima, para ficar com estilo. Dou um jeito ao cabelo,
com as maos, so para ficar mais porreiro. Optimo. Parece me bem. Calço os
sapatos. Dou lhes uma polidela com a escova. Dou um toque na roupa para ficar
perfeita. Vejo me, sem ser ao espelho, parece tudo ok. Penteado, vestido,
tudo bom. Pego nas chaves da ' Rita '. Estou vivo. Sinto me bem.
Sei que estas comigo... Olá giraça... Somos nós dois... para sempre,
num poema eterno, do nosso Amor.
Estou pronto, saio de casa, tranco a porta. Esta tudo em ordem, vou ate ao
telheiro, onde a Rita descansa. Abro a porta do meu lado, entro.
Sento-me no banco. Páro.
Ontem passei perto da tua casa... Fui, no Buick. Sozinho, num sabado 'a noite,
saí, sem destino, ia para um lado, e a meio do caminho decidi voltar para
casa, mas na subida, virei para onde moravas...
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