domingo, 15 de agosto de 2010

fomos sair _ na Strip

chegamos ao topo da rua.

travei.

abri pisca, e dei-lhe,

fomos pela direita, era mais directo.

seguimos em frente. a strip era la mais a frente, e o mac ao lado direito

la quase ao fim antes de dar a volta.

fomos andando na boa... o motor ia roncando baixinho.

O Special '58 tinha alguns toques debaixo do capot,

mas nada de especial, nunca fui muito de andar por ai a perder tempo.

Estava afinadinho, e tocava bem. Na nossa altura era raro ver carros dos

anos 50. Muito menos carros americanos. Seguimos. O dashboard, iluminado

a verde antigo, luzia sob as parcas luzes ( da rua ) ao chegar 'a Strip.

Gosto de andar de carro contigo. 'As vezes quando ando sozinho, faço de conta

que estou contigo a meu lado. Fomos fazendo a recta...

Tu tinhas a janela aberta, ias olhando la para fora, o teu cabelo ondulava um

pouco com o vento... tu brilhavas sobre as luzes. O carro tambem, reluzia

sobre as luzes que iam incidindo, luz, escuro, luz, escuro, luz.

A minha janela, corri o resto, levantei um pouco o volume do radio, com um

rock a tocar, umas guitarras, bombo e tarola, ja' se sabe.

'E o que a juventude quer... olhei para ti. Acenei com a cabeça.

Puseste a tua mão por trás da minha cabeça , acariciaste-me os cabelos,

e sorriste. Sorri-te de volta.

Estavamos quase a chegar 'a Strip, algumas lojas a aproximar-se de ambos os

lados, uma bomba de gasolina la mais a frente, da sempre jeito, e o Mac

pouco depois. Estrada...

Movimento... Ronco do motor, a baixa rotação, numa transmissao Dynaflow.

Luzes do carro, parcas, sobre a estrada. Luzes.

Cores de neons e publicidades. Lojas. Coisas. Estrada.

Chegámos 'a Strip. Encosto 'a direita. Desacelero. Ficamos so em cruise.

Ahhh, a Strip... alguns carros aqui e ali, malta jovem a andar pela rua...

Curtir as suas, alguns carros parados no passeio a meter musica, miudas

giras de cabelo comprido. Pessoal a rir. Um ou outro carro da policia,

ocasionalmente. Adoro conduzir, sempre curti, sabe-me bem, gosto mesmo.

' Queres ir ja´ ao Mac? ' perguntei-te.

' Sim, pode ser, apetece-me um sundae '

' Ok, porreiro, vamos la´ '

Verifiquei que nao havia ninguem na faixa da esquerda, abri pisca;

meti na faixa... travei um bocadinho... olhei para ti.

encolhi os ombros.

Pisei um bocado o acelerador; o carro começou a subir a rotacao,

a velocidade começou a subir progressivamente, com força.

Agarra-te Amor. A estrada vem, e vem mais; o motor agora rugia ja´qualquer coisa,

na força dos seus 5 Litros e meio, pelo meio do binário que o ia impelindo...

Estrada, estrada, alguns carros na outra faixa, estrada, tudo ok;

as cores misturavam-se... O motor falava mais alto, para nos fazer chegar

ao destino... A estrada foi passando... passando; passando,

fizemos metade da strip, tudo a passar; ninguem na faixa da direita,

abro pisca, meto para a direita,

desacelero... estamos perto, desacelero. Entro.

Ok , e' ja aqui. Alguns carros estacionados, nao esta muita gente.

Vejo o estacionamento lateral, e' mais escondido.

Olho, vejo la´ um lugar. Estaciono.

Foda-se 'as vezes fico cansado desta merda. E' so confusao.

Foda-se. Se nao fosses tu ficava na merda. Mas ok, ok. Na boa.

Calmo. Estou aqui.

O motor corre. Torno a chave, e desligo.

' Chegámos ' disse, e continuei

' Vens, ou queres que traga? '

' Traz-me , pode ser? '

' Claro, paixao ' sorri.

Tirei a guita do porta luvas, estava la dentro. Foda-se tenho de olhar para ti,

desculpa, tou fodido. Olhei para ti.

Ah, meu Deus, obrigado. Ah, paixao, o teu cabelo, o teu rosto. Olho mais um

pouco. Linda. Estás belissima. Olho em frente, baixo um bocado a cabeça,

fecho um bocado os olhos, so por um segundo. Ruido colorido sobre preto.

Abro os olhos.

' Ok, vou la´ ' digo, ' nao te esqueças de mim... amor '

' nao... ' acalmas-me.

sorrio, assim meio estranho.

Tento, e faço uma cara direita. Ta-se bem. Abro a porta do carro.

Fecho-a. Um baque.

Esta' uma noite porreira, nem esta muita malta por estes lados,

calminho. Tou porreiro. Hmm, deixa ca ver.

Ponho me a olhar, la esta o M grandalhao la em cima, como de costume.

Nada de especial. Vejo o '58 de fora, e' um carro bonito. Comprei-o

por isso... sempre gostei de Buicks. O azul claro matte fica bonito.

O carro esta' lavadinho, bem limpo, mas nao muito. Os cromados brilham.

E' dito que a grelha da frente e' composta de 160 peças.

E' capaz de ser. Olho para ti, aceno te com a mão.

Olho em redor. Ok. Tenho o dinheiro no bolso pequeno das calças.

Vou la dentro, vou la dentro. Olho para a Strip, passam alguns carros,

olho, nao me parecem ser dos antigos. Vejo. Nao, sao recentes, nem

vao a puxar muito. Passa um fixe, um Cortina GXL, parecia fixe.

Vou la dentro. Ando, ando, vou ate a porta do Mac. Abro.

O balcao e' ali. Vou ate' la. Peço o sundae para ti, com chocolate.

Para mim, trago um hamburger simples. Nao tenho muita fome.

Pago, e bazo, saio da porta. Ar fresco bate me no rosto, sabe me bem.

Paro um segundo. Ok, estou aqui. Inspiro. Sigo ate ao carro.

Abro a porta. Fecho-a.

' Tens aqui o sundae '

' thanks ' agradeces.

' Na boa . Comemos aqui ? '

' Hmmm... pode ser, para darmos mais uma volta 'a Strip,

se calhar depois vamos mais ate ao miradouro '

' Ok '

Abro o involucro do hamburger.

Aqui esta' menos iluminado, ainda bem, fora daquelas luzes todas.

Ola Giraça! ...

Amo-te.

Gosto de ti. E' verdade.

Sorrio amargamente.

Olho para ti. 'E isso...

Respiro fundo. Estas lá. Olha. Vês-me?

Ok.

Sigo a abrir o involucro do hamburger, e vou tirar a minha primeira dentada.

Lembro-me de qualquer coisa que fizemos juntos...

espera. ok. ok...

Entao como. Ta´fixe o hamburgerzito. 'E so mais para dar umas trincas.

Continuo a comer. O radio toca baixinho, quase nem percebo o que toca.

Tu, tens a colher de plastico na mao, e começas a comer o teu sundae.

Sempre gostaste do raio dos geladinhos. Hm. Va', come la isso, chatarrona.

Tiras uma colher do gelado, e leva-lo a boca, a olhar para o gelado.

' Eh pa' isso deve ser muito bom ! ' digo secamente

' Mas 'tas com inveja e' ? '

' Muita '

' Ainda bem '

Continuo a comer o meu hamburger. Atenção, nao e' um cheese. E' um hamburger.

Pao, com um hamburger, pickles, cebola picada, e ketchup. E' isso.

Não tem fatia de queijo. Gosto assim.

Como. Sabe bem. Gosto de hamburgers. E' fixe. 'A boa moda Americana.

' The American Dream ' . Olha, ate temos um bocado do nosso ' american dream ',

nao e' mau de todo. Quase que acabo de comer. Olho para ti.

' Queres ? ' dizes, com a tua voz doce.

' Sim , deixa me so acabar de comer '

' ok '

Ok. Desculpa ser chato, mas deixas me dizer mais uma vez que me apaixonei

pela tua voz. Sei la', e' meiguinha. Como e' que fazes isso' ?

Podias ter sido cantora. Foste?

As vezes sozinho, penso na tua voz. E ficamos os dois.

Como o hamburger, amachuco o papel. Meto dentro do porta luvas.

Ainda cabe la' alguma coisa. Olho levemente para o painel do carro,

e' muito giro, tem muitos tons de azul, e linhas antiquadas, um design muito giro.

Misturado com cromado, Linhas arredondadas misturadas com rectas.

Nao percebo muito de design, mas sei do que gosto. E gosto de ti.

Do carro tambem. Mas mais de ti, so um bocadinho.

Ah. Rio.

Escrita juvenil, pueril. Sonhos e coisas dessas. Olha diz-me coisas.

Zaratustra. Fala comigo, minha musa de cabelos ondulados.

' Joao... '

' Sim '

' Gostas de mim? '

' Acho que sim. '

' O amor e' comum ? ' perguntas.

' Nao sei , mas olha, sei que tenho algum para ti, por ti '

' Obrigado. 'Es bonzinho '

' Sou o que posso ' digo-te. ' Da-me la' um bocado disso, entao '

Das me um pedacinho do gelado, da tua colher. Sou feliz assim contigo.

Obrigado, obrigado; por dentro, secretamente, agradeço aos céus.

Pisco o olho. 'Es linda... amo-te, acho que vivo da tua beleza.

Hmmm, deixa ca ver. Tempos, cores, a Strip. Pois e' isso, eu nem meti

o papel do hamburger no cinzeiro, porque nos fumavamos 'as vezes, e depois

aquilo ainda esturricava com a cinza. O radio estava ligado,

ja nao sei se tinhas sido tu a ligar ou tinha ficado assim, começou a dar um som

fixe, ' baltimora - jukebox boy '

' curto deste som ! E' giro , conheces? '

' nem por isso, deixa ouvir ' concentraste-te para ouvir.

' jukebox boy ' toca. melodia, percussao, voz... conta a historia,

aqui aparece, refrao... ' goodbye to the boy, boy, jukebox boy ! '

' e' gira ! ' dizes.

Continuas a comer o teu gelado, pacificamente, alegre.

Encosto me no banco, a teu lado, a ouvir a musica, na tua companhia.

A musica toca. A noite. 'A noite, nós os dois, tranquilamente,

e a musica vai tocando...

Fixe. Esta' tudo porreiro. So´nos os dois. Gosto dos bancos do carro,

hei de falar deles outra vez. Sao fixes, deixa ca ver, tres tons, tecido

azul, com cabeceira azul por dentro, escura, e rebordo branco 'a volta

em nappa, parece-me. Gosto do cheiro , e' de antigamente. Sempre gostei do cheiro

dos carros, este tem um cheiro antigo, de pó, nao sei, qualquer coisa.

Meto a mão no assento, passo a mao pelo assento, sinto o tecido, e' grosso,

sinto a textura, estranha, e' algo que ja nao existe agora, vem de antes,

outrora, dos tempos mais simples, outros tempos; em tu e eu, sim tu e eu,

tambem vivemos, talvez uma outra vida, terias talvez o cabelo preto, e usavas

baton carregado da Channel, vestias lindos vestidos, com estolas brancas,

chapéus diversificados, tudo, com muita, muita, muita classe.

Sempre tiveste classe, sempre foste uma miuda

educada, realmente gosto disso, e tenho sorte, porque 'es delicada, e culta.

Sempre gostei de conversar contigo, sabes manter uma conversa interessante,

desinteressante, sabes ser chata, ser gira, ser má, enfim ser tu.

Unica, como so tu 'es. Fora de todas as invejas, de todas as merdas que nos

rodeiam, de todos estes merdosos com as suas manias, sempre soubeste,

com classe, manter a tua postura e graça. Que se foda o resto.

O tecido do assento, sob os meus dedos, grosso, estranho, antigo, jaz, aqui,

aqui estou, a' noite contigo. Nao se passa nada? Ainda bem, e' assim que

eu queria. Olho para ti, comes o resto do gelado, toda contente. O cabelo quase

que te vai para a cara, tonta. Come. 'Es uma menina, pequenina, e gosto de ti.

Em pequenina devias brincar com bonecas, no teu pequeno mundo.

' Acabei ' dizes;

' Vou la por isso no lixo, ta ? '

' Vai. ' Pego no copo plastico e a sua colher, e levo os la fora ao lixo.

A strip vai tendo algum movimento, nada demais. Esta' uma noite fraca.

Ainda bem, nao me apetece confusao. Por vezes estou cansado.

Zaratustra, temos de falar disso. Estou de novo no carro.

' E agora vamos onde ? ' questiono.

' Sei la, uma volta na Strip, vais ali a loja buscar-me uns caramelos,

e depois damos uma volta por ai e voltamos ao miradouro ? '

' Ok, acho que sim, tambem estou meio sem ideias, amanha se calhar vamos

'a lagoa, mas hoje nao que ainda e' longe '

' Sim, sim, anda ' dizes alegre.

' Sera que eles percebem que nada disto e' real ? ' digo.

' Ta calado João. Deixa-te de merdas... '

Saco do maço de Lucky Strike do porta-luvas. Saco dois cigarros,

fecho o maço, meto o de volta no porta; tu sacas o isqueiro

da tua malinha preta, ( foda-se miuda, estas girissima hoje...

nem sei, esse teu corpo )

acendes-me os dois cigarros que tenho; puxo o ar com os pulmoes, dou um

trago no fumo, e expiro-o. Tiro um dos cigarros dos labios e dou-to.

Aprendi num filme, ' Now Voyager ' de 1942, nao que isso seja interessante.

Dou uma passa no cigarro, a brasa do tabaco acende, e mostra o seu laranja,

o fumo enche o interior do carro. Uma musica toca em fundo. Tu seguras o cigarro

com a mao direita, leva-lo 'a boca, das uma passa... expeles o fumo;

sorris-me. Baza, vamos bazar. Ligo as luzes que iluminam os manometros,

dou uma volta 'a chave. O motor arranca, forte e volumoso, como um comboio

antigo, cansado, mas obrigado a trabalhar, na sua dor. Da´ um coice de fumo,

que lhe passa, e começa a correr correctamente, como por vezes costuma.

Este carro tem vida, que lhe corre pelos cabos e pelo motor. E' um monstro.

Engato em Drive, que estava em Park; acelero, viro o grande volante, com

as suas insignias e linhas antigas.

Acelero, e tiro-nos dali. Contorno o Mac, e vejo me na interseccao para Strip,

sou obrigado a meter uma direita, abro pisca, vejo se nao vem ninguem;

nao; entro na via e acelero. Ruge, leão, ruge, anda, vá!!!

O Buick leva nos com força, para a frente, a Strip respira, com dificuldade,

perante o monoxido de carbono que se apresenta. As luzes misturam-se.

Dou uma passa forte no cigarro, inspiro fundo, e absorvo o fumo, sinto o efeito

do quimico. Ok, vamos! Olho para ti, de soslaio, nao posso deixar-te de te

olhar. Isso nao. Ja sabes o que acho nao ja? Entao para que perguntas?

Teu cabelo farto, ondulado, adorna o teu peito, e tu, em estilo, tiras uma

passa do cigarro. Os teus olhos, assassinos. 'Es como uma modelo, perfeita,

derradeira, ultima. Fera. O Buick assalta a noite, e faz valer o binario do

fundo dos seus 5.5 litros, a rugir la' do fundo da noite.

Tranmissao dynaflow recalibrada no seu melhor. Chegamos ao fim da strip,

damos a volta para tras, para ir aquela loja ao estilo 7/11.

Recta em sentido contrario. Vamos nas calmas; vamos a fumar um cigarrinho,

vamos em Drive; o Special '58 leva-nos, meto o cigarro na mao esquerda,

sobre o volante, deito fora o fumo, pela boca em estilo de argolas,

acho curtido. Vejo-te pelo canto do olho; meto te a mao direita na tua

pernoca, faço uma festa. Poiso-a lá. Sabes me bem. Conduzo.

As construçoes ao largo da strip vao passando , como as ocasionais plantas e

coisas parecidas que a adornam; candeeiros com as suas luzes arroxeadas, como

de costume, o 7/11, e' la' a frente, antes ainda ha' um semaforo.

Vamos em modo descontraido... a curtir a brisa, o motor, e as luzes, a strip,

o movimento, alguns carros que passam, as pessoas no passeio, nas suas vidas,

outros a curtir, puxar motores. Tempo, estrada, motor.

Chegamos ao semaforo. Vermelho. O 7/11 e' ja la a frente, e' so encostar.

Ao lado esquerdo aparece um gajo num Commodore A GS 2.5 , preto, parece fixe.

O gajo olha muito pouco. Sinto lhe os nervos. O gajo esta' com uma chavala,

acho que ja a vi em algum lugar. O gajo acelera o carro um bocado, ri, olha

em frente. Foda-se ate ia, mas tou cansado hoje, hoje tou cansado.

Olho para ti, paixao. Das uma outra passa no cigarro, fazes um ar barato.

Foda-se. Vou? Nao vou? Vou...

Acelero um bocado a merda do 5.5... o mostro nao gosta.

O gajo continua a olhar em frente. Acelera.

Eu acelero, mas menos... o meu carro abana, grosseiramente.

O semaforo abre, o gajo arranca sem muito skid, e eu sigo tambem,

maquinal, robotico, como e' meu apelo, acelero, e o monstro abre via,

começando a comer a estrada... Furia, furia. Estrada, alguma aceleracao,

o odometro corrido, apela 'a subida da velocidade, aceleração,

o carburador Carter AFB de quatro corpos injecta o fuel tao rapido

como pode, talvez as camaras ja estejam todos abertas a esta rotacao.

O gajo continua a acelerar no Commo A. Seguimos mais ou menos par a par;

mas esta merda abusa. Só que este pesa 2250 Kilos, o dele pesa uns 1100;

transmissao manual, sobre um 2.5 Europeu, 'tou la a ir busca-lo;

o Special esta a

entrar no seu canto estilo Overdrive;

vejo no odometro, quase as 60 milhas horarias. Sera´ que o monstro vai

dar mais?

Estrada, estrada, estrada, o Commo vai a acompanhar, quase ao meu lado,

estrada, estrada, estrada, a Strip mostra as luzes, comoção.

Tou naquela... Eu cago na cena; tiro um bocado o pe' do gas, perco embalo;

sim,

começo a ficar para trás;

o cigarro ja' quase a morrer; no cinzeiro espacial do carro.

Quase no caramelo, tiro lhe um bafo;

e mato-o, no cinzeiro.

Morre caralho, morre. Estingue-se. Tu tambem apagas o teu cigarro

no cinzeiro. Fechas a tampa. Chegas-te mais no banco ate' mim,

estamos quase no 7/11; e' ja ali. Ah, miuda.

7/11, 7/11. Olho para la´, esta aberto, ok, as luzes acesas,

o passeio esta vazio,

podemos la estacionar, na boa. As luzes fluorescentes da loja iluminam em

redor, um toldo esverdeado por cima. Consegue-se ver um bocado

la para dentro, tem janelas de vidro. Meto para o passeio, encosto o carro,

desligo.

' Vou la sozinho ou vens tambem ? '

' Tambem vou , apetece-me mexer me ' comentas.

' Entao vamos la' '

Nao devo nada a ninguem , tou na minha, optimo, e' o que se quer, farra,

boa vida e uma mulher como tu.

As agulhas dos manometros vao descendo devagar. Tiro a chave da ignicao,

ta tudo ok? Ta tudo ok, saimos do carro, fechamos a porta e fechamo-las

com o nosso truque. Ok, fechado. Tudo o que quiseres, tudo o que quiseres.

Foda-se vamos la buscar os caramelos. Olho para o '58, descansa va´,

descansa, que eu ja volto. Dois V's horriveis adornam o capot,

com um distico V enorme na frontal. Por baixo, Buick. Cromados,

tinta, chapa demasiado grossa.

Segues 'a minha frente, caminhas sem balanço de ancas ou merdas,

andas quase pe ante pe', na tua, cabelo pelas costas, castanho claro,

castanho escuro, sobre luz fluorescente empobrecida, da noite, da loja,

jeans justos 'as tuas pernas, top branco meio elastico, com alças.

Sapatos brancos. Caminhas. Chego mais perto de ti, pela esquerda,

andamos perto um do outro, caminhamos. Acho que te ouço aqui. Meto a mao

no teu rabo e sem ninguem ver ( nao esta ali ninguem ),

apalpo-te, de manso, com jeito.

Viras a cabeça para mim, de lado. Tens cara de má. Não 'es a cinderela.

Damos as maos, e andamos ate a loja. Entramos, estao la algumas

pessoas, a comprar umas coisitas, sei la, snacks, garrafas,

pensos higienicos, alcool etilico, canetas. Filtro a realidade,

sigo, olho, bom, doces, onde estarao? Estao para ali naquela parte.

Vamos.

Andamos ate a parte dos doces. Pastilhas de todas as cores e sabores,

gomas de todos os estilos, caramelos diversos, para todos os gostos.

Um gajo aqui com a moca, ainda curtia um bocado, e' colorido,

coisinhas e mais outras. Bonito, bonito, lembro de ir pedrado 'as compras

com o meu grupo, era bonito, todos pedrados a comprar batatas, bolos

miniatura e bebidas diversas, ocasionalmente alcool.

Volto, estou aqui, deixa-me ver, entao, doces.

' Entao, aqui estamos... escolhe, va', cara laroca '

' Ui, docinhos! Que bom, deixa me ca ver... estes, estes aqui, estes... '

Tu la ias escolher. Eu fiquei ali parado a ver-te escolher.

Entretida, a ver caramelos e quais ias comprar. Eu acho que ainda vou

comprar um maço de Luckies, ja nao tenho muitos. Arregaço as mangas

da t shirt,

por sinal, ja meio usada, sempre tive a mania de usar a roupa muitos

dias. Bom, deixa ca ver entao, tas ali a ver os caramelos, e isso,

' vou ali ver umas coisas ' digo assim, baixo.

acenas com o rosto. Dou uma volta pelo 7/11, ja ali estive mais vezes,

nem e' dos piores, ja estive em sitios mais sujos que este, ate e' ok.

Saio desse corredor, olho para as coisas, claro, vou ver revistas,

umas gajas giras na capa de umas revistas, fixe, fixe. Alcool de diversas

especies, e mais outras coisas. Olho em volta. Uma ou outra pessoa.

Se isto nao fosse um romance, se calhar para dar emoçao entrava alguem

a querer gamar a loja, mas felizmente isso nao acontece.

Vou comprar os luckies, vou comprar os luckies, vou ate ao teu corredor,

ao pe' de ti, da me impressao que ja escolheste os doces.

' Quero estes, e estes '

' Va, traz isso '

Trazes uns especie goma, moles com açucar, quadrados 'as cores, e uns

tipo caramelo ou rebuçado, ja vejo isso.

' Alguma coisa para bebermos? '

' Coca-cola? '

Pode ser.

' Vai ate 'a caixa ja la vou ter '

Vou ao corredor das bebidas, frigorifico, pego numa garrafa 33cl de cola,

e vou ate 'a caixa, onde estas, a olhar as coisas 'a tua volta.

Estas no teu mundo, nem sequer estas neste, estas no teu mundo,

a ver as coisas , na tua, nao se passa nada.

Olha, pequena, olha.

' Eu pago ' movo as coisas no balcao para perto da caixa,

onde, por tras esta' o empregado.

' E' para pagar, por favor. '

O tipo la' faz a conta aos doces, a cola, e

' um maço de Lucky Strike '. Pago tudo. O tipo mete tudo num saquito

de plastico, no qual eu pego; pego na tua mão, puxo-te e vamos

dali para fora. Abro a porta, saimos, vamos em direccao ao carro,

que esta ali estacionado.

Isto, parece tudo igual mas nao e' . Sendo-o, nao o e'.

Vamos ate perto do carro. Encostamo-nos nele. Ficas encostadinha de

lado;

do lado direito; na parte da frente do carro, pouso o saco no chao,

e fico de frente para ti, chego me a ti, e fico bem juntinho, junto a ti.

Dois corpos, perto um do outro. Ola'...

Eu aguento, eu aguento. Sim. Chego mais pertinho, sinto-te de mansinho...

Olho para os teus olhinhos, mansinhos...

Mansinhos. Ponhos os braços 'a tua volta, pela cintura, a tua cinturinha,

chega aqui, bela, diz que 'es minha. Va la´.

Ficamos a olhar um bocadinho um para o outro, a namorar.

Que docinho que 'es. Não mais aos dias de solidao, nao mais as noites

'a espera, agora, estas aqui, nao quero mais ficar sozinho, desta vez

ficamos juntos. Belos tempos, segundos, minutos, preciosos de namoro e alegria,

arrufos tolos, e brincadeiras só nossas, ficamos ao telefone 'a noite,

falamos; rimos, e prometemos, ' sim, vou amar-te para sempre ' ;

telefono-te do meu quarto, e sento-me na minha cama a falar contigo,

para o teu quarto, a perguntar-te sobre nada, como foi a escola,

como estas?

Hmmmm... conta-me, conta-me.

Aqui estas, estas a minha frente. Estamos aqui perto do 7/11, e' de noite,

namoramos... olho-te mais um bocadinho; posso?

Abres os olhos, com uma expressao fofa, dizes que sim.

Dou-te um beijinho nos labios, ao de leve. Pequenino.

E abraço-te, junto a mim.

Um abraço, meigo. Fico so assim, junto a ti.

Tempo.

Ficamos assim um pedaço a sentir a noite, esta noite,

aqui, perto da loja, na Strip... Ouve se o barulho das coisas la' mais

ao fundo, os carros que passam, algumas vozes que falam , dizem coisas

indistintas, a brisa.

Tempo passa, ficamos aqui mais um pouco, fiquemos; fiquemos.

Respiramos, ficamos juntos. Estamos aqui, fiquemos.

E' de noite, mais uma noite. Esta, e' nossa.

Quase que consigo imaginar a cidade, vista de cima, com todas as

luzinhas,

o movimento, as coisas que correm, maquinais, repetitivas, sempre iguais,

iguais,

outras normais;

a strip ali mais a direita, e nós, la em baixo, abraçados, junto ao Buick;

calmamente.

Pois. Sou um purista, devo ser. O que e' que hei de fazer?

Estamos ali, abraçados. Deve ter algum valor, amar-te um pouco.

Noite, noites sem fim. Noites sem dormir. Noites.

Noites a dormir, tambem. Penso em ti. Agora, deste lado, nada demais.

São dias. Tudo bom, tudo bem, obrigado. Quem e' ? Foda-se(!), ninguem.

Falo sozinho, estou aqui sentado 'a secretaria, a escrever. Fantasmas.

Merda. Olha. Deixa estar. Hmm, e depois, ja nao me lembro para onde

fomos, quero lembrar-me. Onde estaras? Ou seja, sou maquinal. Amas-me?

O amor, e' uma ficcao minha? Vens, se nao te amar? Chamas-me?

Nah. Boa Noite, descansa meu anjo. Palavras. Tou fodido.

Nessa noite, estava com a minha t shirt, rosa escura, da Converse,

jeans azuis claros, tenis pretos da asics ou que era, cabelo normal,

puxado para tras dos lados, e em cima com um bocado de poupa, rocker;

mas nao muito exuberante. Arábia, Persia, foda-se porque e' que

estou a pensar nisto? Devias ser a Cleopatra, tu. So pode.

Jeito para isso tinhas tu, para andar nas Planicies do Nilo, ha' milhares

de anos e coisas dessas. No meio da areia toda. Vejo isso tudo, areia,

A esfinge. E' isso... 'Es a Esfinge. Calor, noites nossas, o vento

quente do deserto. Ah, amor... como te amo, como te amo. Eu sei, eu sei.

Ninguem mais te fará mal, nao mais... nao mais. Só nos, so nos dois,

ainda que esteja sozinho nao me importo, esta tudo bem; tudo bem,

dorme... dorme, meu Amor. Linhas cruzadas. O telefone tocou de manhã...

Eu ja' sabia... Vou la, vou la. Levanto o auscultador. Não e' ninguem.

Ja´ atendi. Ja' atendi. Não e' ninguem, nao era ninguem. Sou eu.

Ok. Carro. 1985, estou aqui, ola' giraça...

' ...Amo-te Leonor '

' Obrigada, João '

' de nada... de nada '

Conforto-te, contra o meu peito. Não mais te magoarao, meu Amor, nao mais.

Conforto-te.

' Contigo, a minha vida e' um rio de infinita beleza '

Sorris, inocente, 'es uma menina. Precisas de carinho. Eu dou-to,

quando nao houver mais, eu arranjo. Eu arranjo. Abraço-te.

Aqui estou Mundo!!! Ouves-me ???!!! Aqui estou!!!!!!!!!

Não morro, não acabo!!!! Sou eu!!!!!

' Entra no carro, amor, volto ja' ' digo,

' Ok , vais fazer o que ? '

' Comprar pastilhas '

' Ta bem '

Dou-te as chaves para a mao, vais abrindo, enquanto vou la dentro

de novo. Entro na loja.

' De me um pacote, destas Chiclet de canela, se faz favor '

Olho em redor, 'a procura de algo que tinha visto ha bocado.

Encontro. Dentro de um recipiente transparente de plastico, uns

rebuçados e coisas açucaradas, e estava la um anel. Abro a tampa,

rodando, e tiro de la' o anel.

' E' as pastilhas e isto '

Pago, e saio, com as pastilhas no bolso de trás, e o anel, meio escondido

na mao esquerda, cuidado para nao derreter.

Entro no carro, abres-me a porta do meu lado.

Entro. Sento-me.

' O que foste fazer ? '

' Comprar pastilhas, chiclets de canela ' respondo.

' Ahh, ok. '

' Ainda nao estas a comer os doces? '

' Nao. estou a tua espera, comemos os dois, boa? '

' Boa '

' Tenho uma surpresa para ti ' refiro.

' Ai e' ? '

' Sim. '

Abro a mao, discretamente, e mostro o anel.

Entra pouca luz para dentro do carro, mas suficiente para se ver.

' Olha, um anel ! '

' E' um anel para ti. Ves como sou teu amigo '

' Que bom '

' Mostra ca' a tua mão '

Estendes a tua mao direita, tento meter o anel de doce no teu dedo anelar,

ate' entra.

' Viste, serviu '

Era uma especie de solitario açucarado.

' Obrigada ' dizes.

Sorrio. Feliz.

Volto. Lembro me de coisas que ainda nao aconteceram, queria ver-te

outra vez. Sera' que ainda nos vemos?

' Vamos para o miradouro ? ' pergunto-te.

' Vamos '

Ignição. Motor a trabalhar. Luzes de manometros,

acendo-as. Deixo o motor trabalhar um pouco. Ligo o radio.

Meto baixo. Mudo de preset. Parece que esta' a dar doo wop.

Deixo tocar, e' na boa. Motor a trabalhar. Tu, a meu lado.

Olho para ti um pouco... contemplo. Contemplo. Tempo.

Se pudesse, subia um pouco. Vamos ao miradouro, eu nao conto a ninguem;

Engato Reverse, acelero parcamente, ando para tras, viro o volante

grande para a direita, vou vendo por cima do ombro, acelero, travo.

Entro na faixa, nao vem ninguem. Engato Drive. Tiro o pe' do travao,

e acelero. Acelero mais um pouco. Começamos a ir em frente,

estamos na Strip. Vamos percorre-la. Lembro-me de uma coisa, porque e' que

todas as coisas belas teem de acabar mal? Sera' que e' mentira?

Talvez nao. O carro segue, o odometro marca 30mph aproximadamente.

Giro o botao das luzes para acender as exteriores.

' Acende-me um cigarro, paixao , por favor ' peço.

Abres o porta-luvas e tiras de la' os luckies, abres o maço, tiras um cigarro,

metes nos labios; tiras o isqueiro da malinha preta, e rodas uma vez a

pedra. Nao acendeu. Rodas outra vez; lume, chegas ao tabaco e puxas,

acendes-me o cigarro. Dás mais um bafo. Expiras o fumo, grosseiramente,

numa nuvem, fica-te bem. Olhas-me, e das me o cigarro para a mao direita.

Chego o cigarro 'a boca, dou um trago no fumo, mantenho o cigarro na mao,

sobre o volante. Expiro o fumo. O fumo por ali.

A noite, a Strip.

' Vamos ' digo-te.

Piso o acelerador com cuidado, a velocidade começa a subir, ainda ha' muita

estrada ate ao fim da Strip. Va Carter, injecta mais fuel...

Mostra-me o que tens, '58, mostra. Piso mais o pedal do acelerador,

as vozes ficam para trás, as cores misturam-se, estou com o motor, esqueço,

ouço as rotações, a estrada vem, vem, vem, vem, não ha carros na faixa,

estrada, a Strip em Camera lenta, movimento fugaz na noite,

concentro-me mais, a estrada vem, sob os white walls do carro,

ainda há mais asfalto, piso mais o pedal, acelero, acelero, vamos rapido,

nem vou ver a velocidade, mas vamos rapido, o motor faz barulho, na sua

forma assustadora, ouço o ar entrar no filtro para o carburador, com força,

5.5 litros puxam, puxam, puxam, os 2200 kilos de aço da besta, e aqui vamos,

tu, e eu, santificados pela força do binario, de uma tecnologia outrora existente,

que se apresenta na forma um Buick Special de 1958... Estrada, estrada, estrada,

fuel... A Strip esta a correr debaixo dos pneus, depressa, depressa, passa tudo

a correr... Estrada, mais metros, mais uns tantos, mais metros e mais outros

tantos. Ouço o motor a trabalhar ja a uma rotação razoavel, constanstemente,

estrada corre, corre...

e deixo me embalar por mais uns segundos, neste som magnifico.

Ouço o som, ouço-o.

Ouço o por mais uns segundos, agora estamos quase a chegar ao fim da Strip.

Tiro o pe' do acelerador suavemente, com cuidado, este carro e' dificil

de controlar, atenção; começamos a abrandar, suavemente, a rotação diminui,

diminui, diminui; a estrada começa a aparecer mais lenta, mantenho as maos

no volante, com precisao, tanta quanto posso; piso o travao um pouco,

desaceleramos mais um pouco, a Strip esta mesmo a acabar, antes de chegar 'a

curva para descer, 'a esquerda. Piso um pouco mais, travamos mais, com

suavidade, este carro e' conhecido por boas suspensoes, e alem disso,

traz travões de disco aos quatro cantos. Suave, suave, estamos quase a

velocidade legal de novo. O cigarro, que estava poisado no cinzeiro, ainda

da para tirar umas passas, pego nele e olha, tiro mais uns tirinhos.

Ahhh, ok, ok.

' Gostaste de gastar gasolina ? ' perguntaste-me.

' Sim. '

' Eu tambem, foi giro '

Meto para baixo, 'a esquerda. Descemos toda a rua, nas calmas.

Miradouro, perto da fabrica. Estacionamos mesmo como ha' bocado,

por sorte nao esta ninguem, na mesma.






jf. ( 11 )

05 / 08 / 10

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